
And i’m listening to…
Esses dias senti vontade de escutar alguma coisa mais… Visceral… Crível… Algo que possuísse uma guitarra mais marcante, vocais nítidos e honestos, gritos e sussurros. Geralmente eu ouço bandas novas, e cada vez mais pendendo para o eletrônico, EBM ou Indie difícil de classificar… Como o Lês Sav Favy, que tocou nessa ultima versão do Coachella Festival nos EUA.
Queria algo antigo, mas que soasse novo, não obsoleto, fundamental, com letras boas e um som diferente.
Voltei aos primórdios… Larguei de lado os discos do Portishead um pouco, dei umas férias para a Björk, não dei atenção ao novo single do CSS e passei reto pelos novos do Silverchair (que esta estranhíssimo) e Black Crowes. Fui ao Black Sabbath.
Eu sempre gostei de discos renegados, já falei isso aqui, e outro dia estava ouvindo o sensacional Never Say Die do Sabbath, que é um disco feito aos pedaços, com Ozzy já com um pé fora da banda, todos de saco cheio, gravações atrasadas e vocalistas improvisados. No caso, o vocal do Fleetwood Mac, que estampa no Sabbath uma sonoridade mais Stoner, pelo fato de que seu vocal mais grave faz com que as guitarras de Iommi fiquem mais “bluseiras” mesmo na época em que estavam. Fim de uma era, de uma transição lisérgica que atravessavam desde o lançamento do Sabotage e antes do estilo completamente diferente adotado no Heaven And Hell. Muito Heavy Metal, quase um NWOBHM.
Mas eu queria um disco bastardo, Never Say Die é ótimo, mas eu queria algo mais obscuro. E Black Sabbath não é só Ozzy, também não é só Dio, e muito menos os 4 discos com Tony Martin que possuem uma produção muito cristalina para uma banda tão Doom, estilo que o Sabbath ajudou a criar. Além do Heavy Metal.
O disco é o Born Again.
Por volta de 1983 o Black Sabbath estava à procura de um vocalista, Ian Gillian estava sem banda e frustrado com sua carreira solo. Saudades de grandes espetáculos. Coverdale fazia um bom trabalho no Deep Purple, e o Sabbath precisava de alguém de nome, alguém que agüentasse a responsabilidade de fazer parte da banda. Uma pessoa que também estivesse a fim de abraçar todo o processo de fazer parte do Sabbath, que são turnês, show e muito mainstream. Afinal, é das maiores bandas de todos os tempos. Então, um belo dia, Iommi estava enchendo a cara em algum Pub Inglês, quando encontra Ian Gillian também mergulhado na cachaça. Depois de varias doses a mais, os dois combinam de fazer um disco e a entrada de Gillian na banda. Todos se despedem e vão embora. No dia seguinte o telefone de Gillian toca, é Iommi chamando-o para começar a trabalhar! Reza a lenda que ele não acreditou realmente que o trato era pra valer, ele não se via como vocalista do Black Sabbath. Mas como bom gentleman inglês que é, honrou seu compromisso. E o Born Again nasceu… Péssimo trocadilho…
Gillian só fez algumas exigências. Não iria usar roupas espalhafatosas ou crucifixos pelo corpo. Bill Ward, baterista da formação clássica do Sabbath passava por problemas pessoais, e depois de gravar o disco não pode sair em turnê com a banda, sendo substituído por Bev Bevan do ELO.
O interessante desse disco, além dessa pequena historia, é que durante as gravações o amplificador da guitarra de Iommi estourou, mas nenhum dos técnicos, nem o próprio Iommi perceberam o dano. O disco foi gravado e mixado assim mesmo, fazendo com que as guitarras todas ficassem com uma sonoridade abafada, toscas e obscuras.
O que é bárbaro!
Para a capa do disco, não poderiam ter feito escolha melhor, ou pior. Depende do ponto de vista. Eu acho a capa do Born Again fantástica, uma das melhores. Há um demônio “o da foto acima” recém nascido, com um efeito cromático, azul contrastando com o vermelho. Caótico.
E as músicas? Estranhas. Um som pesado, as vezes arrastado, marcante e com riffs cravejados de uma densidade tenebrosa e obscura. As letras? Padres, corridas de carro, crises psicológicas e álcool.
Fãs mais ardorosos bradam que esse disco é o que Gillian mais gritou em sua vida. A versatilidade do seu estilo encaixou e se adequou ao som do Sabbath, que ao contrario do Deep Purple possui um som mais “palpável” e direto. Sem tantos malabarismos do Blackmore, guitarrista do Purple como Gillian estava acostumado.
Mesmo assim, o disco não foi um sucesso, destoava muito dos outros discos do Sabbath, e nem os próprios gostaram dele, a sonoridade realmente é diferente de qualquer coisa que o Sabbath tenha feito. Talvez pelas mudanças nas guitarras.
Esse disco eu fiz questão de ouvir em CD, original, deixei de lado as MP3 que cortam a profundidade do som, tirando freqüência e amplitude. E o resultado é muito bom, com um aparelho de som em ordem. E possível ouvir as ótimas levadas de Geezer no baixo, e até a flauta que Iommi toca em algumas partes.
A banda se separou logo em seguida, foram muito criticados por se tornarem uma espécie de Deep Sabbath ou Black Purple. Realmente é um disco bastardo, e ninguém agüentava o Sabbath tocando Smoke On The Water nas Turnês. Eu ainda não tive a oportunidade de ouvir esse disco ao vivo, mas gostaria de saber como Gillian se saiu cantando Heaven And Hell, originalmente do Dio, no palco. O disco possui nove faixas, dentre elas duas são vinhetas. O que faz dele um disco nada comercial. Existe ainda uma faixa perdida nunca lançada desse disco que pode ser encontrada perdida pela internet.
Só para encerrar, há ainda o fato de que a música Zero The Hero teve o Riff roubado posteriormente pelo Gun’s And Roses na música Paradise City. O que convenhamos é uma copia descarada, mas também uma homenagem, a um disco tão único.
***Notas da Wikipédia:
-Nas gravações do álbum, existiram mais duas demos, “The Fallen” e “Death Warmed Up” que não foram incluidas no álbum. “The Fallen” pode ser encontrada nos bootlegs, “Born In Hell” (como faixa extra), e “Born Again Demos”
-A música “Disturbing The Priest” surgiu a seguinte maneira: Durante as gravações do álbum, um padre foi reclamar com a banda, por causa do barulho que eles faziam. Eles se desculparam imediatamente, Gillan saiu para tomar uma cerveja, e a música veio em sua cabeça.
-Trashed e um relato de quando Gillan bateu o carro de Ward, numa corrida bebado, pelos gramados dos estúdios de gravação.
-Digital Bitch, foi escrita para a filha de um homen que tinha negocios com computação, disse Gillan. Rumores dizem que essa mulher é Sharon, a esposa de Ozzy, filha do empresario da banda Don Arden.